Ao entrar no mercado e observar na gôndola destinada aos tomates todos podres ou verdes; ele decidiu reclamar ao funcionário mais próximo, responsável pela área das verduras:
_ Os tomates estão podres!! _ exclamou.
O funcionário, muito alto e magro que usava uma roupa toda branca com um pequeno chapeuzinho branco de verdureiro no alto de sua grande cabeça que pendia na extremidade de seu comprido corpo; inclinou-se como uma vara que é tencionada, até quase encostar seu fino nariz nos tomates, como se este fosse uma toupeira cega que precisa-se farejar ao invés de ver, deu duas aspiradas rápidas com suas largas narinas em um movimento quase que mecânico voltando a posição ereta como a vara tencionada que é solta, dando a nítida impressão de que já havia realizado aquela operação por diversas vezes, olhou agora então pela primeira vez nos olhos do reclamante, com um olhar fulminante e mortal, como se este o estivesse tentando passar para trás. E então com uma voz fina esguichada, respondeu:
_ Não estão podres!!! Estão verdes!!!
Apesar de estranhamente abalado pelo olhar fulminante do funcionário e fingindo não ter sido afetado respondeu:
_ sim, mas não estão maduros!!!
O funcionário aumentando o tom de sua voz e com os braços abertos respondeu-lhe já quase aos berros:
_ Quem o senhor pensa que é!! Entra aqui e fala que nossos produtos estão podres, se os tomates estão verdes é porque estes ainda ficarão maduros! E afinal, o que o senhor pretende aqui, comprar ou reclamar??
Mais abalado ainda com a exaltação inesperada do funcionário e tentando disfarçar sua nítida intimidação, respondeu, num tom bem mais baixo e sem gesticular, tentando evitar os olhares dos outros fregueses que por lá circulavam e que aos poucos já percebiam a atmosfera de desentendimento que emanava das gôndolas de verdura:
_ Meu senhor, eu sou um consumidor e tenho os meus direitos...
_ Então consuma!! _ interrompeu subitamente o funcionário: _ Consumir este é o seu único direito como consumidor! Agora vir aqui para ficar falando mal de nossos produtos!! O senhor não pode!!! Que tipo de consumidor é o senhor que entra em um mercado para falar mal deste! Ao invés de consumir! Pois saiba que o senhor pode até ser preso por isso!!! Por difamação!! Acho que devo chamar o gerente, começo a desconfiar de você, acredito que você não seja um consumidor!! E é terminantemente proibida a entrada de pessoas aqui, que não sejam consumidores!
_ Mas... Eu... Sou sim um consumidor... _ Respondeu, ele, agora já completamente intimidado e amedrontado em um tom de voz bem baixo audível ao funcionário somente porque este sabia do que se tratava a fala.
Então funcionário curvou-se chegando seu rosto bem próximo do agora trêmulo e cabisbaixo rosto que outrora reclamava. Cheiro-o da mesma forma que havia cheirado os tomates antes, e com o olhar fixo e os dentes cerrados; sussurrou em seu ouvido:
_ É um consumidor? Então prove!!
Essas palavras fizeram o seu olhar rapidamente desviar para a gôndola dos tomates e uma súbita vontade de comer tomates podres invadiu seu corpo.
mal-escritos de um pseudo-intelectual semi-analfabeto
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quinta-feira, 30 de outubro de 2008
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