mal-escritos de um pseudo-intelectual semi-analfabeto

Marcadores

contos (2) microntos (5) palas (5) poesias(?) (2)

domingo, 27 de setembro de 2009

Sobre o que não pode ser visto.

Existia um olho que ficava em um cego que ficava em uma praça. Este cego que nunca viu, pois era cego de nascença, afirmava que seu olho esquerdo não lhe pertencia, lhe havia sido presenteado por um importante rei caolho, que por sua vez o tinha herdado de um grande místico hebraico, o qual o tinha encontrado duzentos anos antes, em baixo de uma pedra no Egito.
No entanto era um olho, e como qualquer outro olho, olhava. O que diferenciava este olho de qualquer outro olho é o que este olho via. Talvez por uma grande maldição agregada ao olho ou apenas uma grande ironia do destino, a única coisa que este olho podia ver era justamente aquilo que não podia ser visto.
O cego, como era cego, não podia ver nem mesmo aquilo o que não podia ser visto. Mas ele sempre sabia que o olho estava olhando o que não era para ser olhado. Assim o cego sempre praguejava:
_Maldito olho! Já vai começar a olhar o que não é para ser olhado. Ainda bem que sou cego. Porque se não estaríamos perdidos, pois o que não pode ser visto estaria sendo visto e o mundo inteiro viraria um grande caos. Que fardo pesado este que eu tenho que carregar!
Por sua vez o olho também odiava o cego. Já que este passava os seus dias sentado na mesma praça e nunca proporcionava ao olho novas paisagens para que o olho procurasse nelas o que não podia ser visto. O olho, assim, também praguejava o cego:
_Maldito cego, passa todos os seus dias e noites nesta mesma maldita praça, nunca me proporciona novas possibilidades de ver o que não se pode ver. Ver o que não pode ser visto em novos horizontes, diferentes a cada dia. Ver o que não se pode ver em situações diversas, em corpos diversos. Ver o que não se pode ver em movimento... Como eu gostaria de ver o que não se pode ver andando de moto... Destino desgraçado! Fez-me vir a habitar justamente a órbita ocular de um cego! Eu aqui me esforçado para ver tudo aquilo que não pode ser visto e não tenho com quem compartilhar, vivo neste mundo solitário e tedioso onde quase todas as coisas que não podem ser vistas eu já vi e tudo isso apenas para manter a ordem em um mundo onde as coisas mais importantes para serem vistas são justamente aquelas que não se pode ver... Que sina terrível esta de ser o olho de um cego.
Quarenta anos depois, o olho já tinha visto tudo o que não podia ser visto a partir daquela praça, já tinha visto o que não podia ser visto das pedras da praça, já tinha visto o que não podia ser visto das árvores daquele local, já tinha visto o que não podia ser visto dos bancos da praça, do céu, do dia e da noite, das casas, do ar, o olho já tinha visto tudo o que não se podia ver. Até mesmo o que não se podia ver do cego que o portava, inclusive por dentro, pois quando o cego dormia o olho aproveitava para dar uma espiadinha no que não podia ser visto por dentro do cego.
Foi quando o cego morreu. Antes de morrer, agonizando e se retorcendo no chão, uma grande felicidade o invadia, pois ele sabia que os seus longos anos de guardião do terrível olho estavam por terminar. No entanto ele também sabia que tinha que resistir, pois não podia morrer sem passar seu fardo para um próximo na linha de sucessão, aquela era a sina do olho, ele deveria ser passado adiante e ninguém poderia olhar por ele. Mas quem? Perguntava-se o cego, quem seria digno de tal sina? Com a agonia da morte cada vez mais próxima o cego decidiu optar pelo destino, entregaria o olho ao primeiro que viesse em seu socorro. Assim começou a gritar por ajuda, o primeiro a aparecer foi um jovem menino que passava por ali:
_ O senhor necessita de ajuda? Vou chamar ajuda!
Disse o menino. Já virando o rosto buscando não ver a cena daquele pobre moribundo agonizando.
_ Não! Volte!
Gritou o cego com suas últimas forças.
_ Menino, pobre menino, o destino lhe enviou para esta minha última hora. Tenho algo para lhe dar. Vê este meu olho esquerdo?
O menino acenou afirmativamente com a cabeça.
_Vê?!
Insistiu o cego, já que este não tinha como ter visto o gesto do garoto.
_Sim! Eu vejo!
Respondeu o garoto já bastante atordoado pelos fatos.
_ É uma pena que veja... Respondeu o cego. _Esperava que o destino me enviasse alguém cego para que eu pudesse passar meu fardo, isso apenas aumentará o tamanho do fardo que passo adiante. Pois bem, este meu olho esquerdo não é um olho qualquer ele é um olho que vem sendo passado a gerações, e você garoto! Será o próximo guardião do olho, este olho é um olho que vê tudo aquilo que não pode ser visto, portanto, preste muita atenção! Nunca, nunca olhe por este olho porque o que não pode ser visto é para não ser visto e assim deve continuar, entendeu garoto? Caso você olhe por este olho o que não pode ser visto terá sido visto e o mundo inteiro entrará em um caos completo!

Com suas últimas forças, antes de morrer, o cego arrancou seu olho esquerdo e entregou para o menino. O olho, antes disso nem tinha prestado muita atenção no menino, pois estava fortemente entretido vendo aquilo que não podia ser visto da morte do cego.
O menino com o olho em mãos e as pesadas palavras do cego em sua mente correu para casa se esquecendo até mesmo de tentar socorrer o cadáver que ali jazia. Chegando rapidamente em casa, o menino entrou em seu quarto, trancou a porta, fechou as janelas e olhou para o olho, no mesmo momento o olho olhou firmemente para tudo aquilo que não podia ser visto no olho daquele jovem menino. Eles ficaram ali por horas: o menino olhando para o olho e o olho olhando para o menino. Foi Quando o menino em um súbito movimento, motivado por uma grande curiosidade que tomava conta de seu corpo inteiro, principalmente de seus olhos, pegou o olho e deixando de lado todas as advertências do cego, olhou por ele.
Depois desse dia o menino, o olho e o mundo nunca mais foram os mesmos, pois finalmente tudo aquilo o que não podia ser visto, foi visto, e assim se tornando outra coisa que não aquilo o que não pode ser visto. Logo, tudo foi outra coisa que não a coisa mesma e sim algo diferente.
Fim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário